Trezentas citações e milhares de alusões. O Novo nasceu do Antigo.
De todas as fontes que os autores do Novo Testamento tinham à mão, a mais usada foi o próprio Antigo Testamento. Todo livro do Novo, com a exceção de Filemom e das cartas curtas de João, cita ou alude ao Antigo. São cerca de trezentas citações diretas e literalmente milhares de alusões. Esse número diz uma coisa que às vezes esquecemos: o cristianismo primitivo estava enraizado no judaísmo, e a Bíblia dos primeiros cristãos era o Antigo Testamento. Do mesmo jeito que hoje baseamos os nossos sermões nos dois Testamentos, eles baseavam os deles no Antigo.
E não citavam de qualquer jeito. As fórmulas que introduzem as citações mostram o quanto eles tinham o Antigo Testamento como palavra de Deus. Ao lado de "a Escritura diz" ou "Isaías diz", aparece "Deus diz", "o Espírito diz". Para eles, aquelas páginas eram as próprias palavras de Deus (2Tm 3.16; 2Pe 1.21). A pergunta deste caderno não é se os apóstolos usavam o Antigo Testamento, e sim como. E a resposta abre uma das portas mais ricas para entender o Novo.
O autor do Novo Testamento é fiel ao contexto original do Antigo e, ao mesmo tempo, o transforma à luz da vinda de Cristo. Ele não ignora o que o texto antigo dizia; conta com isso, e espera que o leitor também conheça. Mas o lê através da realidade de Jesus, que dá ao texto a sua conclusão. Segurar os dois lados dessa corda é o segredo de ler bem o Antigo no Novo.
Quem solta um dos lados cai num dos dois erros comuns. De um lado, tratar as citações como se os apóstolos ignorassem o contexto antigo e torcessem o texto ao sabor da conveniência. De outro, negar que houve qualquer transformação, como se o Novo apenas repetisse o Antigo. A verdade é mais interessante e mais bonita: existe fidelidade e existe novidade, e a ponte entre as duas tem um nome, que veremos ao longo do caderno. Chama-se tipologia.
Antes de estudar como o Novo usa o Antigo, vale saber qual Antigo Testamento eles tinham nas mãos, e em que versão o liam.
O cânon do Antigo Testamento já estava fechado no tempo de Jesus. Josefo, Fílon, o prólogo do Eclesiástico e os textos de Qumran confirmam a lista tradicional, dividida em lei, profetas e escritos. Os vinte e quatro livros da contagem judaica correspondem aos trinta e nove que temos hoje. A igreja primitiva usou muito a tradução grega, mas o cânon dela era exatamente esse, sem os apócrifos.
É a tradução grega do Antigo Testamento, feita provavelmente entre 250 e 150 a.C. em Alexandria. Era a Bíblia comum do primeiro século, aceita até na Palestina, e boa parte das citações do Novo Testamento vem dela. Em Mateus, por exemplo, muitas citações da Septuaginta aparecem na boca do próprio Jesus, o que sugere que ele a usava. Até as cartas mais judaicas, como Hebreus e Tiago, citam só a Septuaginta.
Um detalhe conforta quem se preocupa com a extensão do cânon. Já se propôs que Alexandria teria um cânon mais amplo, com os apócrifos, mas essa ideia caiu: os grandes códices gregos que trazem esses livros são de copistas cristãos posteriores, não de judeus, e Fílon, o maior nome do judaísmo alexandrino, não mostra conhecer nenhum cânon ampliado. A única citação de um livro fora do cânon é a de 1Enoque em Judas, e nem por isso Judas o tratava como Escritura canônica.
Jesus era lido como um rabino, e os autores do Novo Testamento em geral interpretavam o Antigo do jeito que o judaísmo do seu tempo interpretava. Conhecer essas técnicas é conhecer a gramática que eles usavam.
O targum era a paráfrase em aramaico lida na sinagoga para o povo comum, que já não dominava o hebraico. O midrash, da raiz "buscar", é o processo pelo qual os mestres explicavam o sentido mais profundo do texto ao povo; dividia-se em halacá (questões de conduta, como andar) e hagadá (exposição e pregação). O pesher, usado em Qumran, era a leitura "isto é aquilo", que aplicava a profecia antiga diretamente à comunidade, como se o texto tivesse sido escrito só para ela.
O midrash tinha regras. As sete middoth atribuídas a Hillel organizavam o modo de tirar sentido de um texto e ligá-lo a outros. Elas aparecem por todo o Novo Testamento, sobretudo em Paulo e em Hebreus, e vale reconhecê-las.
| Regra de Hillel | O que faz |
|---|---|
| Do leve ao pesado | O que vale numa situação menor vale ainda mais numa maior. Paulo a usa no contraste entre o primeiro e o último Adão (Rm 5). |
| Analogia verbal | A mesma expressão em duas passagens faz uma valer para a outra. Une Gênesis 15 e Salmos 32 em Romanos 4. |
| Família a partir de um texto | O sentido de uma frase encontrada em vários lugares se aplica a todos eles. |
| Família a partir de dois textos | Um princípio tirado da relação entre dois textos se estende a outros. |
| O geral e o particular | Uma regra geral se aplica a casos particulares, e vice-versa. O amor que resume os mandamentos em Romanos 13. |
| Como em outro lugar | Uma dificuldade num texto se resolve comparando com uma passagem clara. |
| O contexto decide | O sentido é estabelecido pelo contexto da passagem. |
É preciso honestidade aqui. Nas mãos erradas, essas regras levaram a uma exegese arbitrária, que unia passagens sem quase nada em comum. Douglas Moo lembra que, no primeiro século, elas eram mais abordagens populares do que procedimentos técnicos, e que os dois recursos mais típicos eram simples: comparar e combinar textos, e dar peso a palavras isoladas. O ponto de partida era sempre a própria Escritura, e o alvo era atualizar o texto para a vida do povo.
Uma coisa é o método para entender o texto. Outra é a técnica para trazer o texto antigo para a vida da comunidade nova. A principal delas, de longe, é a tipologia.
A tipologia se distingue da profecia direta, e essa diferença resolve metade das dúvidas sobre o assunto. A profecia é direta: ela olha para a frente e prediz o acontecimento do Novo Testamento. A tipologia é indireta: ela liga, por analogia, um acontecimento do Antigo a um do Novo. Os primeiros cristãos viam toda a história da salvação como um só movimento contínuo. Assim, as grandes ações de Deus no passado, como o Êxodo ou o retorno do exílio, preanunciavam as experiências da igreja. Não por uma seta profética explícita, mas por correspondência: Deus é consistente, e age hoje como agiu ontem.
| Aspecto | Profecia direta | Tipologia |
|---|---|---|
| Direção | Direta: prediz o evento futuro. | Indireta: liga por analogia um evento antigo a um novo. |
| Base | Uma promessa verbal explícita. | Uma correspondência histórica entre as ações de Deus. |
| Exemplo | Miqueias 5.2, o nascimento em Belém. | Oseias 11.1 em Mateus 2.15, Jesus revivendo o Êxodo. |
A tipologia vê no evento antigo um molde que o evento de Cristo repete e completa. O sensus plenior, "sentido mais pleno", é a ideia de que Deus pôs no texto antigo uma profundidade que só se revela à luz do Novo, além do que o autor humano percebeu. A identidade coletiva é a chave que faz tudo funcionar: o Messias representa toda a história do seu povo, e por isso Jesus revive, na própria vida, a história de Israel.
Vale registrar minha posição, que é a de Osborne. A tipologia me parece suficiente para explicar o uso do Antigo no Novo, sem precisar recorrer sempre a um sentido mais profundo escondido. Quando Mateus vê o retorno do exílio de Oseias 11.1 cumprido na volta de Jesus do Egito, não é que Oseias estivesse secretamente falando de Jesus. É que Jesus, como Messias, revive a história do seu povo. As outras duas técnicas do capítulo são a alegoria, que busca um sentido espiritual por trás dos detalhes, usada por Paulo em Gálatas 4 com Sara e Hagar, e a reorientação do texto, quando o autor encontra um sentido novo, sempre, no caso dos apóstolos, em consonância com o original.
Diante de uma citação, como não errar? O caminho tem três estações, e pular qualquer uma delas empobrece a leitura.
Comece com uma exegese séria da passagem no seu contexto no Antigo Testamento. C. H. Dodd observou algo importante: uma citação muitas vezes pressupõe o contexto inteiro de onde saiu, não só as palavras citadas. Quando Jesus grita na cruz o início do Salmo 22, o lamento está ali, mas por baixo dele está também a vitória que o mesmo salmo anuncia no fim.
Veja como o judaísmo do Segundo Templo já lia aquela passagem, na Septuaginta, nos targuns, em Qumran, nos escritos rabínicos. Isso costuma dar a pista de como o autor do Novo Testamento a usou. Um erro comum é procurar no texto antigo toda a exegese moderna, em vez de perguntar como Pedro ou Paulo de fato o empregaram.
Por fim, observe como o autor usou a passagem. Ele seguiu o hebraico ou o grego? Mudou alguma coisa, e por quê? Quais são as implicações teológicas? E que tipo de referência é: uma citação, com semelhança verbal próxima; uma alusão, com algumas palavras da passagem; ou um eco, com só um termo ou um tema?
É o nome que os estudos bíblicos dão, desde o fim do século XX, ao diálogo entre um texto antigo e o novo contexto em que ele é retomado. Os dois textos passam a conversar: o sentido original e o sentido novo se iluminam. Bem usada, a intertextualidade estuda exatamente essa conversa, sem reduzir tudo a "ecos" vagos.
No fundo de tudo está a pergunta da fidelidade. Peter Enns propõe que os autores do Novo Testamento liam o Antigo "à luz da vinda de Cristo", e nisso ele tem razão. Mas eu acrescento o outro lado: eles também conheciam o contexto antigo e queriam que o leitor o conhecesse. Mateus sabe o que Oseias quis dizer, e deseja que você saiba também, para então ver Jesus cumprindo aquilo. Há transformação, sim. E há fidelidade. As duas juntas.
Cada autor do Novo Testamento tem um jeito próprio de puxar o Antigo. Reconhecer a assinatura de cada um ajuda a ler suas citações com o ouvido certo.
| Autor | Como usa o Antigo Testamento |
|---|---|
| Mateus | Cerca de sessenta citações, o Antigo tecido na base do evangelho. Dez fórmulas de cumprimento ("para que se cumprisse"). A ênfase é o controle soberano de Deus sobre a história, com Jesus revivendo e completando a história de Israel. |
| João | No Livro dos Sinais, "está escrito"; na paixão, "para que se cumprisse". A tipologia domina, e tudo é cristológico: em João 12.41, Isaías "viu a glória de Jesus e falou dele". |
| Atos | Cerca de trinta e sete citações, quase todas no meio de sermões, seguindo a Septuaginta. Não tanto cumprimento, e sim exemplos de como os primeiros cristãos pregavam, mostrando que Cristo cumpre toda a Escritura. |
| Paulo | Mais de cem citações, mais da metade em Romanos, sobretudo onde o problema é judaico (Romanos, Gálatas). Trânsito hábil entre hebraico e grego, com "cordões" de textos amarrados por tema e as regras de Hillel em ação. |
| Hebreus | O exemplo mais conhecido do uso do Antigo no Novo. Pentateuco e Salmos como fontes; "Deus diz" no lugar de "está escrito". Tipologia do começo ao fim: Jesus cumpre toda a lei cerimonial. |
| Apocalipse | Nenhuma citação formal, e ainda assim mais alusões do que qualquer livro do Novo. João tece o Antigo inteiro na narrativa, fiel ao contexto e ao mesmo tempo transformando-o para as suas igrejas. |
Repare no fio comum. Cada autor tem seu estilo, mas todos fazem a mesma coisa: mostram Jesus e a igreja que ele fundou cumprindo as expectativas do Antigo Testamento. E todos herdaram a mesma caixa de ferramentas judaica, o midrash, a tipologia, o pesher. Por isso, ao estudar uma citação, olhe sempre os três níveis: o contexto antigo de onde ela veio, a técnica judaica de apropriação e o uso no contexto do Novo.
Tudo o que vimos converge para uma pessoa. O Antigo Testamento não foi usado pelos apóstolos como um arquivo de provas soltas, e sim como o testemunho, de ponta a ponta, daquele que finalmente chegou.
No caminho de Emaús, com dois discípulos derrotados, Jesus faz a leitura que resume este caderno inteiro. "Começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras" (Lc 24.27). Não uma passagem, nem duas. Todas. Lucas repete a ideia depois (Lc 24.44) e Atos a ecoa sem parar: "todos os profetas" dão testemunho de Cristo. Para os apóstolos, a história de Jesus estava ao mesmo tempo em continuidade com a metanarrativa de toda a Escritura e era o seu apogeu.
É isso que Mateus quer dizer com "cumprir". Em Mateus 5.17, Jesus não veio abolir a Lei e os Profetas, e sim levá-los ao seu ponto mais alto. O sentido do Antigo Testamento fica completo nele, tanto no que ele fez quanto no que ensinou. E é o que Paulo condensa em Romanos 10.4: "Cristo é o fim da lei", no sentido de que ele se tornou a culminação, o alvo para onde a lei sempre apontou e onde ela chega ao seu destino.
Por isso ler o Antigo no Novo não é um exercício técnico para especialistas. É aprender a enxergar Cristo onde ele sempre esteve. Cada citação que um apóstolo faz é um dedo apontando para a mesma direção. Quando você entende como eles liam a Bíblia deles, entende por que a Bíblia inteira, do Gênesis ao Apocalipse, conta uma história só, e por que essa história tem um nome no centro.
Os apóstolos foram fiéis ao texto antigo e o transformaram à luz de Jesus, porque viam nele o apogeu de tudo o que Deus vinha dizendo desde o princípio. Ler o Antigo no Novo, no fim, é ver a Escritura inteira convergir para o Cordeiro.
Tudo o que você leu aqui pode ser verificado. Estas são as obras e os autores que sustentam cada afirmação deste caderno.
Ao estudar uma citação, olhe os três níveis: o contexto antigo, a técnica judaica de apropriação e o uso no Novo. Existe fidelidade ao original e transformação dele. Os dois lados, juntos, revelam Cristo como o centro de toda a Escritura.
A Palavra merece
o melhor do seu preparo.